sábado, 2 de abril de 2011

Origem do Monaquismo oriental e ocidental


Um estudo muito profundo e histórico sobre a Origem do Monaquismo

I - Origem do Monaquismo



A palavra “monaquismo” vem do grego monachós = aquele que está só; designa uma forma de vida cristã totalmente consagrada a Deus no retiro, no silêncio, na oração, na penitência e no trabalho.Houve formas de monaquismo pré-cristão na Índia, na Palestina (os essênios), mo Egito (os terapeutas, os neoplatônicos)... O monaquismo cristão tem seus fundamentos imediato no próprio Evangelho, onde o Senhor Jesus aconselha a deixar tudo e seguir incondicionalmente o Cristo. Pode-se crer, na base do testemunho de S. Paulo em 1 Cor 7, que já nas primeiras décadas do Cristianismo havia homens e mulheres que se abstinham do casamento para poder-se consagrar mais plenamente ao reino de Deus.No século III essa modalidade de vida ascética tomou a forma eremítica (primeira forma de vida consagrada masculina); os cristãos retiravam-se para o deserto, tendo como modelo S. Antão (251-365); este é considerado o “Patriarca do monaquismo”; filho de família rica, ouviu o apelo do Senhor proclamando na Igreja e resolveu deixar tudo, retirando-se para o deserto do Egito, após ter providenciado a subsistência de sua irmã mais jovem. A “Vida de S. Antão”, escrita no século IV por S. Atanásio, exerceu grande influência sobre as gerações posteriores.A vida eremítica teve expressões de grande generosidade: os monges viviam em silêncio, trabalhando com as mãos na confecção de cordames, cestas, esteiras e dedicando longas horas à oração; os jovens iam consultar os anciãos a respeito de seu tipo de ascese. Alguns ermitas se dedicaram a formas de penitência muito pessoais. Além de uma autêntica vida de oração e penitência, oferecida em favor da Igreja, os eremitas ou “padres do deserto” contribuíram em muito com a teologia e filosofia, através de escritos, que ainda hoje enriquecem a doutrina cristã. A vida eremítica era ainda forte grito profético no interior da Igreja, quando esta, após os tempos de perseguição se unia às forças e poderes do Império. A vida eremítica foi cedendo aso poucos à vida cenobítica ou comunitária. Esta apresentava suas vantagens a saber: mais freqüente ocasião de se praticar a caridade e controle da comunidade sobre atitudes e comportamentos, às vezes esdrúxulos, dos monges eremitas S. Pacômio (+ 346) foi o primeiro organizador da vida cenobítica, que ele quis submeter a uma regra e a um superior chamado “Abade” (=Pai); a Regra visava a regulamentar a disciplina do monges na oração, no trabalho, no vestuário, na alimentação..., apresentando um caminho de santificação concebida pela sabedoria do Fundador. A casa dos cenobitas tomou o nome de monastérion em grego (donde mosteiro em português). O mosteiro data de 320; fundou-o S. Pacômio em Tabesini, a 570 Km ao sul da moderna cidade do Cairo.Os monges eram quase todos leigos, isto é, não recebiam as ordens sacras; o número de sacerdotes nos mosteiros correspondia às necessidades do serviço interno da comunidade. Só na idade Média é que se difundiu o costume de conferir o presbiterato aos monges. São Pacômio era tão rigoroso neste particular que excluía por completo a possibilidade de ordenas algum monge, pois julgava que esto podia suscitar o desejo de honras e encargos de projeção. Conservam-se até hoje coletâneas de historietas e dizeres (Apoftegmas) dos Padres do Deserto, cuja leitura revela a sabedoria e o heroísmo daqueles cristãos. Obs.: Cenóbio: vem dos vocábulos gregos Koinós (=comum) e bios (=vida). "E, pois, a casa de vida comunitária, à diferença do eremitério (de eremos = deserto), lugar de vida solitária.Anacoreta: vem dos termos gregos aná (para trás ) e chóreo (caminhar). Significa aquele que se retira ou o eremita.Abade: do hebraico Abba (= Pai) designa, na origem um ancião que atingiu o cume da vida ascética. Ascese: vem de Askéses no sentido pagão significa o conjunto de exercícios que mantém o vigor físico, intelectual ou moral.Mística: vem de Mustikos as cosias que se relacionam como os mistérios, sobretudo os objetos rituais ou as pessoas iniciadas aos mistérios. No sentido cristão é toda experiência de intimidade com Deus e toda doutrina relacionada com esse tipo de experiência.



II - O Monaquismo no Oriente



O oriente foi o berço do monaquismo, que se difundiu pelos lugares retirados (se não desertos ) do Egito, da Palestina, da Síria...Ao lado dos mosteiros masculinos, foi fundado grande número de mosteiros femininos. Estes tinham suas raízes especiais na prática de consagrar a virgindade ao Senhor seja mediante voto particular, seja mediante voto público de castidade (cf. ! Cor 7,37); os escritores dos séculos III e IV Tertuliano (+ após 220), S. Cipriano (+258), Metódio de Olímpio (+311), S. Ambrósio (+397) deixaram escritos que louvam e recomendam a virgindade consagrada. S.a Pacômio mesmo fundou dois mosteiros femininos. Geralmente tais mosteiros ficavam situados nas proximidades dos cenóbios masculinos, a fim de facilitar o intercâmbio espiritual, o mútuo auxílio econômico e a proteção em casos de assalto (como ocorriam às margens dos desertos.O grande legislador do monaquismo oriental foi S. Basílio Magno. Visitou as colônias de monges da Síria, da Palestina, do Egito e da Mesopotâmia. Depois entregou-se à vida oculta às margens do rio Íris (Ásia Menor), com homens do mesmo ideal. Nesse retiro escreveu duas Regras cenobítica, que ficaram famosas na história da espiritualidade; louvava os cenóbios como lugares em que se pode exercer a caridade fraterna mais do que no deserto, e como depositários da plenitude dos carismas do Espírito Santo, como ocorre na grande Igreja. S. Basílio atribuiu grande importância não só à oração, mas também ao estudo, especialmente ao da Teologia; procurou desta maneira fundir entre si o ideal dos antigos monges e o gênio da cultura helenista. Características do mosteiro Basiliano: casa modesta, apenas algumas dezenas de monges, oração canônica doa e noite, silêncio, trabalho manual e intelectual e liturgia eucarística quatro vezes por semana (alguns monges são sacerdotes).É o grande nome do Monaquismo na Ásia Menor, mas o monaquismo nessa região nasceu com Eustátio, bispo de Sebaste que foi mestre de Basílio (houve um rompimento posterior devido a divergências doutrinárias; para ele, a grande regra dos monges é as Sagradas Escrituras).

III - O Monaquismo no Ocidente
Começou sob forma eremítica principalmente sob a inspiração de S. Atanásio, que escreveu a vida do primeiro eremita: S. Antão. Em algumas ilhas do mar mediterrâneo e em lugares retirados da Itália e da Gália registra-se a existências de anacoretas desde remotos tempos.Todavia os ocidentais, dotados de senso prático e ativo, deram mais ênfase à vida cenobítica. Esta foi incentivada por grandes mestres como S. Ambrósio (+397), S. Jerônimo (+420),S. Agostinho (+430), S. Paulino de Nola(+431).A vida e a espiritualidade cenobita era em muito semelhante da eremita (oração, ascese, trabalho manual, direção espiritual), porém alguns fatores faziam a diferença : a vida comunitária, o abade, a regra e a dedicação aos estudos.Quatro figuras se destacam no monaquismo ocidental: S. Martinho de Tours, S. Agostinho, S. Bento de Núrsia e S. Columbano.



S. Martinho de Tours (397)



É o primeiro monge documentado no Ocidente. Filho de um soldado romano, aos quinze anos já seguia a profissão do pai, mas sua verdadeira vocação sobreviveu a sua vida militar. Aos dezoito anos abandonou a milícia, recebeu o batismo e seguiu Santo Hilário de Poitiers, seu mestre. Após um breve noviciado na vida eremítica, fundou alguns mosteiros. Discípulos se reuniram em torno dele e, nas cavernas da margens do rio Loira, desenvolveu-se a primeira colônia monástica da Igreja do Ocidente. Mas em 375 foi eleito bispo de Tours, e tornou-se o grande evangelizador do centro da França. Tinha sido como disse um soldado sem querer, monge por escolha e bispo por dever. Seu mosteiro progrediu tanto que seus monges eram procurados para exercer cargos de bispos. Ligugé é o primeiro mosteiro do Ocidente. Martinho não legislou a vida monástica.

S. Agostinho (430)



Uma vez convertido em Milão, voltou à África e, em Tagaste, tratou de reunir em torno de si alguns irmãos dispostos a renunciar aos bens materiais para levar vida monástica: queria viver com seus clérigos e irmãos leigos segundo a regra dos Apóstolos : nada possuíam de próprio; tudo era comum, de modo que cada qual recebia da comunidade o que lhe fosse necessário.Da carta 121 de S. Agostinho uma secção foi extraída, tornando-se a Regra de S. Agostinho, que ainda hoje inspira o modo de viver de várias famílias religiosas (Agostinianos, Dominicanos,...). Como bispo praticamente viveu com seus presbíteros como em um mosteiro, levando uma vida comunitária e de oração profunda. Seu ideal monástico é basicamente comunitário: buscar a Deus juntos, “Um só coração e uma só alma” (atos). Uniu a vida clerical à monacal (até então praticamente laical). Para ele, era necessário a trilhar um caminho de humildade, purificação das almas e caridade.



S. Bento (+547?)



É dito "o patriarca dos monges ocidentais”. Nasceu por volta de 480 em Núrsia (Itália), de nobre família rural romana. Começou em Roma seus estudos de artes literárias, mas logo retirou-se para os montes Sabinos (Subiaco), onde levou vida eremítica por três anos. Descoberto e procurado por discípulos, fundou doze mosteiros na região de Vicevaro. Teve que deixar tal ambiente para ir residir em Monte Casino (529), onde fundou o mosteiro-berço da Ordem Beneditina. Foi aí que escreveu a sua Regra, inspirada pelo senso de equilíbrio e discrição dos romanos. Valeu-se da tradição monástica anterior, tanto ocidental como oriental, e adaptou-a às condições de vida de sua época, procurando oferecer uma disciplina que permitisse aso fortes desenvolver os seus dons e, ao mesmo tempo, não afugentasse os fracos. Há quem julgue que S. Bento realizou sua obra legislativa a pedido do papa Agapito ou até do imperador Justiniano, desejosos de codificar e vivificar as diversas experiências de vida monástica até então ocorrentes no Ocidente.Pode-se dizer que o lema de São Bento é Ora et labora (ora e trabalha). Por isto deu importância primacial ao Ofício Divino ou à oração oficial da Igreja recitada no coro sete vezes durante o dia e uma vez durante a noite. O espírito de oração deve, pois, impregnar toda a vida do monge, inclusive o trabalho, que na época era principalmente o da lavoura e das oficinas (os monges eram de origem goda, de pouca cultura; além do Quê, a Itália era cenário de guerras, que deixavam pouca disposição para elevados estudos).
A atividade intelectual nos mosteiros de S. Bento era originariamente a da lectio divina, ou seja, a da leitura meditada da Sagrada Escritura.



IV - A importância do Monaquismo



É grande e relevante a contribuição do monaquismo, não só na vida da Igreja , nas na história , de modo especial no início do novo mundo (após a queda do Império Romano). Forma em grande parte os monges beneditinos que evangelizaram os anglo-saxãos e outros povos germânicos (Inglaterra, Bélgica, Holanda, Norte da Alemanha etc.); ensinaram aos povos bárbaros que viviam nos arredores dos mosteiros, os princípios de cultura; transmitiram às crianças e aos adolescentes os conhecimentos científicos e a formação cristã através das escolas monasteriais, que prepararam o nascimento das universidades.Foram também eles , os copistas, que salvaram da ruína os tesouros da cultura romana, que através dos seus códigos e obras de arte, passaram para as gerações vindouras.Se quiséssemos sublinhar a parte ativa que os mosteiros tomaram no movimento literário, seria necessário escrever um compêndio de toda a história literária da Idade Média. Quer se trate de teologia, exegese, quer de história , poesia, matemáticas, gramáticas, quer ainda de filosofia, a maioria dos pertencentes aos séculos VII ao XII são recrutados entre os monges.A história é uma parcela que os monges praticamente se reservam. Basta um lance de olhos aos trabalhos modernos reativos às fontes históricas pra convencer-se disso. Em resumo , não seria descabido afirmar que toda a alta Idade Média lhes pertence: seria mais cômodo nomear os autores não monges. A teologia dos quatro primeiros séculos da Idade Média terá meta muito precisa: investigar e assentar solidamente a tradição católica, cujo sentido os monges possuem tão enviscerado . Por isso, esforçar-se-ão pra tornar mais inteligível a leitura da Escritura e dos principais Padres da Igreja. Este esforço teológico tem o mérito inegável de ter fixado a tradição católica sobre um bloco importante de pontos doutrinais. Um monge, santo Ancelmo, foi quem abriu a porta a novas correntes, inaugurando nova época. Ele é o primeiro filósofo que faz teologia.Foi no claustro de um mosteiro que foi impresso o primeiro livro no mundo (mosteiro de Santa Escolástica, Subiaco, Itália). Forma , ainda, os monges que muitas vezes estiveram à frente das fileiras da Igreja no combate as heresias; que contribuíram fortemente com a liturgia, especialmente através da música sacra ( o canto gregoriano tem por pai são Gregório Magno, que antes de ser papa foi monge; a ele se deve a mais completa biografia de São Bento).