sábado, 12 de julho de 2014

Estudo da OESI - nº1


Como surgiu o Novo Monasticismo na Igreja Evangélica?

·         Oração das Vésperas

·         Reflexão Bíblica: Atos 2.41-47

·         Conversando sobre espiritualidade

            Introdução:
            O que é o Novo Monasticismo?
            Tanto o termo em si, e a existência real do movimento chamado de novo monasticismo teve realmente suas origens na escrita, o ensino e prática de Dietrich Bonhoeffer .
            Começou no dia 26 de abril de 1935, quando Bonhoeffer colocou em prática o seu interesse no ensino monástico na fundação de um seminário ilegal em Zingst, Alemanha , durante a Segunda Guerra Mundial. Em junho do mesmo ano, mudou-se para Finkenwalde . A Polícia de Segurança do Estado fechou a instituição em 1937, prendendo 27 dos seus alunos.
            No mesmo ano, Bonhoeffer escreveu seu famoso livro,  o Preço do discipulado .  Dietrich foi executado pelos nazistas em 9 de abril de 1945 em Flossenburg, na prisão , apenas algumas semanas antes do fim da Segunda Guerra Mundial. Ele tinha 39 anos.
           

            I. 1940: Irmão Roger de Taizé, na França
            O irmão Roger (luterano)  deixou sua casa na Suíça e se mudou para a França para ajudar os refugiados fugindo da ocupação nazista. Ele fundou a comunidade monástica de Taizé , em França .
            Embora à primeira vista e de muitos modos, aparentemente  era uma parte do"monaquismo antigo" , mas sua Comunidade monástica ajudou a construir muitos dos "marcos" da corrente "do monaquismo Novo" no sentido criar uma "ponte" entre os dois.
            É uma Comunidade monástica independente, que era no início Interdenominacional e Protestante.  Eles agora se referem como um grupo "ecumênico".  Atualmente, seus monges também incluem os membros da Igreja Católica Romana  Ortodoxa Oriental .
            Três marcas de Taizé no novo monaquismo:
            1.) Taizé foi a primeira comunidade independente monástica (não filiado a uma denominação).
            2.) Taizé foi a primeira  Comunidade Interdenominacional monástica (a primeira protestante, mais tarde, incluindo Católica Romana e Ortodoxa Oriental).
            3.) Taizé foi a primeira Comunidade monástica a apelar para um grande número de jovens. Começando em 1950, e especialmente a partir de 1960. São Jovens em número cada vez maior na busca de Deus e do sentido da vida.

             II. 1944: Irmandade Evangélica de Maria
            As fundadoras foram Madre Basilea (Drª Klara Schlink, 1904 - 2001), doutorado em Psicologia na Universidade de Hamburgo, 1934 - foi líder do Movimento Cristão das Estudantes Alemãs e Madre Martyria (Erika Madauss,1904 - 1999), formada Faculdade de Treinamento para Assistência Social, em Hamburgo e Londres.
            Madre Basilea e Madre Martyria tomaram uma corajosa posição cristã, durante o regime de Hitler. Quando era a presidente nacional do "Movimento Cristão das Estudantes Alemãs" (1933-35), Madre Basilea recusou-se a compactuar com a política nazista, que impedia aos judeus cristãos de participarem dos encontros e reuniões.
             Durante a II Guerra Mundial ela arriscou a vida e a carreira, falando publicamente sobre o destino singular de Israel. Convocada duas vezes a comparecer perante a polícia de segurança nazista pelo fato de proclamar o senhorio de Jesus Cristo, permitiram-lhe que saísse ilesa, a despeito de sua firme postura.
            Madre Martyria mantinha estudos da Bíblia para jovens e também ensinava-lhes o Antigo Testamento, que  era proibido durante o regime de Hitler.
            Em 11 de Setembro de 1944 Darmstadt (Alemanha) é destruída por um ataque aéreo; mais de 12.000 pessoas foram mortas. Durante anos as Madres haviam orado por um reavivamento nos grupos de estudos bíblicos para moças que elas lideravam; agora, suas orações haviam sido atendidas -mas de maneira diferente daquela que haviam esperado. Naquela noite, as moças conheceram a Deus em Sua santidade, como Juiz e Senhor sobre a vida e a morte. Nada podia ficar escondido; nenhum cristianismo morno poderia manter-se em Sua presença santa.
            Em seguida àquela noite de terror, houve um movimento dentre as moças, para que  trouxessem à luz o pecado e  recebessem o perdão. "Onde existe perdão dos pecados, há também vida e salvação" (Martinho Lutero). O momento de Deus havia chegado. Das cinzas surgiu vida nova.
            Tem início uma nova Irmandade Evangélica: 30 de março de 1947: Cerimônia inaugural da Irmandade, na casa dos pais da Madre Basilea, chamada "Casa Steinberg", que havia, em grande parte, escapado ao bombardeio.
            O co-fundador, Paul Riedinger, um Pastor-Superintendente da Igreja Metodista (f. 1949), deu à Irmandade o nome de Maria, a mãe de Jesus, que exemplificava a fé e a dedicação à vontade de Deus, seguindo Jesus até à cruz.
            As primeiras Irmãs eram na maioria da igreja luterana, mas atualmente a Irmandade conta com membros de muitas denominações evangélicas, procedentes de 18 nacionalidades.

            III. R.A. Torrey III, funda a Abadia de Jesus na Coréia em 1964
            Por volta de 1964, Reuben Archer Torrey III , um sacerdote episcopal e Missionário na Ásia ( ele tinha sido criado na China, seus pais também foram missionários ), neto de Dwight Moody'sR.A.Torrey , fundada a Abadia de Jesus como uma comunidade missionária da Coreia.  
            É filiada livremente com a Episcopal Church.  Eles são evangélicos na doutrina e são uma Comunidade Monástica Leiga. Usam o termo "monges" ao se referir a si mesmos.

            IV. 1994: Comunidade Northumbria 
            O Nether Springs Trust foi criada em meados dos anos oitenta, na jornada espiritual em finais dos anos setenta e início dos anos oitenta por John e Linda Skinner e Andy Raines , que começaram a tentar seguir Dietrich Bonhoeffer  nas idéias de um novo monasticismo --- pessoas comuns aprendendo e praticando em suas próprias vidas, os aspectos da espiritualidade monástica tradicional. 
            Em 1989 Nether Springs fundiu com o Ministério Northumbria, e em 1994 tornou-se Comunidade Northumbria (uma comunidade dispersa). 
            São evangélicos influenciados tanto pelos primeiros franciscanos como pelos primeiros monges celtas.

            V. 1999: S G Preston ( Monge Preston ) e sua esposa Linda (Monja Linda ) co-fundam a The Prayer Fundação e os Cavaleiros de Oração:  Ordens Monásticas 
            Em 1999, a SG Preston ( Monk Preston ) e sua esposa Linda ( Linda Monk ), fundam a Oração Fundação , um ministério Evangélico Interdenominacional para promover e incentivar a oração no Corpo de Cristo. Acreditam que todos os ministérios cristãos, também devem pregar o Evangelho.
             A partir de outubro 2007, registraram Monges em 7 países da América e Europa e mais de 1.700 voluntários em 43 países no mundo.
             Ao mesmo tempo, eles fundaram a Interdenominacional ( Monjes que permanecem em suas próprias denominações ) a Ordem Monástica Cavaleiros de Oração como um dos ministérios da Fundação Oração
            Foi a primeira Ordem Monástica para permitir Monjas. 
            Ensinaram que o monaquismo deveria ter sido posto à prova das grandes doutrinas dos protestantes da Reforma, como a Igreja institucional foi, e chegaram à conclusão de que os monges devem ser autorizados a casar . 
            Mais tarde, eles aprenderam que os monges cristãos Celtas (400-1100 dC) também tinham essa opinião, e também estavam muito ocupados com missões, viajando como monges missionários para a Inglaterra e Europa Continental.  
            Oração Fundação  re-definiu o termo "Monge", indicando: "tudo o que realmente significa o termo" monge "é um cristão, especialmente dedicado à Palavra de Deus e a oração" . 
            Em 19 de julho de 1999, Linda se tornou a primeira mulher Monja: a primeira mulher a receber oficialmente"status de monja" na história do cristianismo.  Eles são uma moderna Ordem Religiosa dos monges celtas no espírito Franciscano.

            VI. O crescimento do Novo Movimento Monaquismo: 2004-2005
            Entre 2004 e 2005 dezenas de Ordens evangélicas monásticas foram formadas, principalmente em nos EUA, mas também no Reino Unido. Estes costumam combinar grupos de casados e solteiros, alguns com filhos. Fazendo missões e evangelismo em suas próprias localidades, e geralmente zelosos para ajudar os pobres. 
            A ideia é ir além de aceitar a Cristo, e viver o Evangelho em sua vida diária. Os termos Novo Monaquismo e Neo-Monaquismo entrou em uso geral para descrever o que é agora um movimento, e começa a influenciar a comunhão cristã inteira.
            Em 2008 foi estimado mais de 100 grupos na América do Norte que afirmam ser "evangélicos" e "monástico" de acordo com o The Boston Globe  (3 de fevereiro de 2008).

            OESI - Ordem Evangélica dos Servos Intercessores
            Nossos sonhos, propósitos e projetos segundo orientação do Senhor.

            Qual o nosso caminho? 


domingo, 15 de junho de 2014


Dia da Santíssima Trindade
Rev. Edson Cortasio Sardinha


No domingo após o Pentecostes a Igreja Celebra o Dia da Santíssima Trindade. Os Ciclos do Natal e da Páscoa apontam para a Ação do Deus Triuno na Salvação da humanidade.
Há somente um DEUS, e uma só Trindade (ou "triunidade"). Deus subsiste numa unidade de três pessoas igualmente divinas e distintas.
            A oração familiar e cotidiana dos judeus, extraída de Deuteronômio 6.4, enfatiza a suprema grandeza da unidade divina: "Ouve, Israel, o Senhor nosso DEUS é o único Senhor".  A palavra "único", aqui usada, corresponde ao hebraico, "echad", que pode representar uma unidade composta ou complexa. Embora o hebraico possua uma palavra que signifique "somente um" ou "o único", "yachid", esta jamais é usada em relação a DEUS.
            Paralelamente a unidade de DEUS, deparamo-nos com o conceito de sua personalidade. A personalidade envolve o conhecimento (ou inteligência), os sentimentos (ou afetos) e a vontade. O PAI, o FILHO e o ESPÍRITO SANTO, cada um de per si, revelam tais características à sua própria maneira.
            O ESPÍRITO SANTO, por exemplo, faz coisas que o mostram realmente como uma pessoa distinta, e não como mero poder impessoal (At 8.29; 11.12; 13.2,4; 16.6,7; Rm 8.27; 15.30; 1Co 2.11; 12.11). A personalidade também requer comunhão. Todavia, antes da existência do Universo, onde estava a possibilidade de comunhão? A resposta está na Trindade.
A unidade de DEUS não exclui a possibilidade de nela haver personalidades compostas. Há três personalidades distintas, cada qual inteiramente divina, mas encontram-se tão harmonicamente inter-relacionadas que resultam numa única essência. Como se vê, seria totalmente errado afirmar que na Trindade haja três deuses e Uma maneira de se desvendar as distinções das pessoas, na divindade, consiste em se observar as funções atribuídas especificamente a cada uma delas.
            DEUS PAI é relacionado à obra da criação; DEUS FILHO é o principal agente da obra de redenção da humanidade; e DEUS ESPÍRITO SANTO é a garantia de nossa herança futura. Esta tríplice distinção é esboçada no primeiro capítulo de Efésios.
            Contudo, não devemos pressionar tais distinções, pois há abundante testemunho bíblico quanto à cooperação do FILHO e do ESPÍRITO SANTO na obra da criação: o PAI criou através do FILHO (Jo 1.3); o ESPÍRITO SANTO pairava gentilmente sobre a terra, preparando-a para os seis dias da criação (Gn 1.2). O PAI enviou o FILHO ao mundo para efetuar a redenção (Jo 3.16), e o próprio FILHO, em seu ministério, veio "no poder do ESPÍRITO" (Lc4.14).
            O PAI e o FILHO, de igual modo, tomam parte no ministério do ESPÍRITO SANTO, que consiste em santificar o crente. A Trindade é uma comunhão harmoniosa dentro da deidade. Essa comunhão é amorosa, porque DEUS é amor. Mas esse amor é expansivo, e não auto-centralizado.
            Ele requeria que, antes da criação, houvesse mais de uma Pessoa dentro do Divino Ser. Um importante vocábulo para se guardar, no tocante à doutrina da Trindade, é "subordinação". Há uma espécie de subordinação na ordem das relações das pessoas da Trindade, mas sem qualquer implicação quanto à natureza de cada uma delas.
            O FILHO e o ESPÍRITO são declarados como "procedentes" do PAI. É uma subordinação, pois, quanto às relações, mas não quanto à essência. O ESPÍRITO, por sua vez, é declarado procedente do PAI e do FILHO. Esta é a declaração ortodoxa da Igreja Ocidental, adotada por ocasião do Concílio de Nicéia, em 325 d.C, e incorporada em diversos credos.
            Embora o termo "trindade" não seja encontrado em nenhum lugar da Bíblia, há numerosas passagens que lhe fazem alusão. Um exemplo é visto de maneira clara nos eventos que cercam o batismo de JESUS no rio Jordão: -Batizado JESUS, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o ESPÍRITO de DEUS descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é meu FILHO amado, em quem me comprazo" (Mt 3.16,17).
            Nos 25 Artigos de Religião, John Wesley inicia dizendo:

“Há um só Deus vivo e verdadeiro, eterno, sem corpo nem partes; de poder, sabedoria e bondade infinitos; criador e conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Na unidade desta Divindade, há três pessoas da mesma substância, poder e eternidade - Pai, Filho e Espírito Santo.

Fonte pesquisada: Livro A TRINDADE de Willian W.Menzies e Stanley M.Horton,  Rio de Janeiro: CPAD, 1995.

Os 25 Artigos de Religião dos Metodistas. Cânones 2012. 
De Volta ao Tempo Comum
Rev. Edson Cortasio Sardinha




Com a Festa do Dia de Pentecostes retornamos ao Tempo Comum. Serão no total 34 Semanas e terminará no dia 29 de novembro, vésperas do primeiro Domingo do Advento.
“Tempo comum”, “Tempo ordinário” ou “Tempo durante o ano” são três designações para o período de cerca de dois terços de todo o ano litúrgico (33 ou 34 semanas) e que tem como característica própria celebrar o mistério de Cristo na sua globalidade, em vez de se centrar numa dimensão desse mesmo mistério de Cristo.
O Tempo Comum começa na segunda-feira a seguir ao domingo que ocorre depois do dia 6 de Janeiro e prolonga-se até à terça-feira antes da Quaresma inclusive; retoma-se na segunda-feira a seguir ao Domingo do Pentecostes e termina antes das Vésperas do primeiro Domingo do Advento.
            O que caracteriza este longo tempo litúrgico é a celebração do mistério de Cristo na sua globalidade, especialmente nos Domingos.
Esta globalidade significa que a manifestação do Senhor não se celebra exclusivamente no ciclo natalício, mas continua no Tempo comum; significa que a Páscoa não se celebra apenas no ciclo próprio, mas que ilumina toda a existência cristã ao longo do ano; significa que toda a vida de Cristo, com a salvação que traz e torna presente, acompanha a vivência cristã de todo o ano litúrgico. Todo domingo é Páscoa do Senhor.
            É na celebração do Domingo, Dia do Senhor e “Páscoa semanal”, que o Tempo comum encontra o seu centro significativo. Ora, os Domingos do Tempo comum são aqueles que se podem considerar os Domingos no seu estado mais puro: Páscoa semanal e primeiro dia da semana, que dá sentido à vivência de toda a semana.
Antes da Igreja celebrar o Natal ou a Páscoa cristã, ela celebrava todos os domingo o Tempo Comum. Isso significa que todo domingo é festa que celebra o nascimento, morte e ressurreição de Jesus. 
            Nos domingos do Tempo Comum, as leituras do Evangelho apresentam Jesus na normalidade quotidiana dos seus gestos e dos seus ensinamentos. Os textos evangélicos aparecem-nos, assim, como a grande escola dos discípulos de Cristo, dos cristãos, que acompanham o Mestre e O escutam no dia a dia; que procuram configurar as suas vidas com a do próprio Cristo. O Tempo comum é tempo de amadurecimento da vivência da fé.
Todas as ações da Igreja, seja no Tempo Comum ou nos Ciclos do Natal e Páscoa, deverão visar o discipulado.

A Igreja morre quando deixa de fazer novos discípulos e discípulas. Nossa Missão é semear a justiça e a paz através de um forte comprometimento com a Palavra do Senhor que nos manda fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19).

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Dia de Pentecostes
Rev. Edson Cortasio Sardinha
            O tema deste domingo é o Espírito Santo. Dom de Deus a todos os crentes. O Espírito que dá vida, renova, transforma, constrói comunidade e faz nascer o Homem Novo. Por isso neste dia oramos: “Vem Espírito Criador” (Veni Creator Spiritus). Este hino foi escrito por Rabano Mauro (780-856), na Mongúcia, no século IX.    No ano de 1662 entrou para o Livro de Oração Comum (Book of Common Prayer) da Igreja Anglicana. Martinho Lutero usou-o como base para o seu coral de Pentecostes "Komm, Gott Schöpfer, Heiliger Geist" composto em 1524.
            Encontrei um texto muito bom no site dos Dehonianos de Portugal e adaptei para este artigo acrescentando alguns apontamentos.
            A experiência do Espírito ocorre no dia de Pentecostes. O Pentecostes era uma festa judaica, celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Originariamente, era uma festa agrícola, na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo; mas, no primeiro século d.C, tornou-se para os judeus a festa histórica que celebrava a aliança, o dom da Lei no Sinai e a constituição do Povo de Deus. O povo saiu do Egito e chegou ao Monte Sinai onde Moisés recebeu a Lei. A Festa judaica fala da Lei dada por Deus e escrita em pedras.
            Ao situar neste dia o dom do Espírito, Deus sugere que o Espírito é a Lei da nova aliança (pois é Ele que, no tempo da Igreja, dinamiza a vida dos crentes) e que, por Ele, se constitui a nova comunidade do Povo de Deus – a comunidade messiânica, que viverá da Lei escrita, pelo Espírito, no coração de cada discípulo (cf. Ez 36.26-28).
            O Espírito é apresentado como “a força de Deus”, através de dois símbolos: o vento de tempestade e o fogo. São os símbolos da revelação de Deus no Sinai, quando Deus deu ao Povo a Lei e constituiu Israel como Povo de Deus (cf. Ex 19,16.18; Dt 4,36).
            Estes símbolos evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro do homem, comunica com o homem e que, dando ao homem o Espírito, constitui a comunidade de Deus. O Espírito vem em forma de língua de fogo. A língua não é somente a expressão da identidade cultural de um grupo humano, mas é também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros entre as pessoas, de criar comunidade.
            “Falar outras línguas” é criar relações, é a possibilidade de superar o gueto, o egoísmo, a divisão, o racismo, a marginalização… Aqui, temos o reverso de Babel (cf. Gn 11,1-9): lá, os homens escolheram o orgulho, a ambição desmedida que conduziu à separação e ao desentendimento; aqui, regressa-se à unidade, à relação, à construção de uma comunidade capaz do diálogo, do entendimento, da comunicação.
            É o surgimento de uma humanidade unida, não pela força, mas pela partilha da mesma experiência interior, fonte de liberdade, de comunhão, de amor. A comunidade messiânica é a comunidade onde a ação de Deus (pelo Espírito) modifica profundamente as relações humanas, levando à partilha, à relação, ao amor.
            É neste enquadramento que devemos entender os efeitos da manifestação do Espírito (cf. Act 2,5-13): todos “os ouviam proclamar na sua própria língua as maravilhas de Deus”. O elenco dos povos convocados e unidos pelo Espírito atinge representantes de todo o mundo antigo, desde a Mesopotâmia, passando por Canaan, pela Ásia Menor, pelo norte de África, até Roma: a todos deve chegar a proposta libertadora de Jesus, que faz de todos os povos uma comunidade de amor e de partilha.

            A comunidade de Jesus é assim capacitada pelo Espírito para criar a nova humanidade, a anti-Babel. A possibilidade de ouvir na própria língua “as maravilhas de Deus” outra coisa não é do que a comunicação do Evangelho, que irá gerar uma comunidade universal. Sem deixarem a sua cultura e as suas diferenças, todos os povos escutarão a proposta de Jesus e terão a possibilidade de integrar a comunidade da salvação, onde se fala a mesma língua e onde todos poderão experimentar esse amor e essa comunhão que tornam povos tão diferentes, irmãos.
            O essencial passa a ser a experiência do amor que, no respeito pela liberdade e pelas diferenças, deve unir todas as nações da terra. O Pentecostes dos “Atos” é, podemos dizê-lo, a página programática da Igreja e anuncia aquilo que será o resultado da ação das “testemunhas” de Jesus: a humanidade nova, a anti-Babel, nascida da ação do Espírito, onde todos serão capazes de comunicar e de se relacionar como irmãos e irmãs, porque o Espírito reside no coração de todos como lei suprema, como fonte de amor e de liberdade.

Imagem: Rosácea da Igreja Metodista de Vila Isabel em dedicação ao Espírito Santo.

Fonte pesquisada: http://www.dehonianos.org

terça-feira, 27 de maio de 2014

Dia da Ascensão do Senhor

Dia da Ascensão do Senhor
Rev. Edson Cortasio Sardinha



            Em 2013 estive pela primeira vez na Capela da Ascensão. Esta Capela pertence aos mulçumanos, contudo um dia pertenceu a igreja dos Cruzados que separaram, segundo uma antiga tradição, este lugar do Monte das Oliveiras para celebrar a Ascensão do Senhor. Em Jerusalém esta festa é celebrada na quinta-feira da sexta semana da Páscoa em Jerusalém.
            Encontrei um excelente texto sobre a Ascensão do Senhor baseado em Atos dos Apóstolos no site dos dehonianos de Portugal e fiz um resumo para a nossa edificação.
           A Festa da Ascensão de Jesus sugere que, no final do caminho percorrido no amor e na doação, está a vida definitiva, a comunhão com Deus. Sugere também que Jesus nos deixou o testemunho e que somos nós, seus seguidores, que devemos continuar a realizar o projeto libertador de Deus para os homens e para o mundo.

I. Ambiente
            O livro dos “Atos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem num certo contexto de crise. Estamos na década de 80, cerca de cinqüenta anos após a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada. Quando vai concretizar-se, de forma plena e inequívoca, o projeto salvador de Deus?
            É neste ambiente que podemos inserir o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura. Nele, o catequista Lucas avisa que o projeto de salvação e de libertação que Jesus veio apresentar passou (após a ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.

II. Mensagem
            O nosso texto começa com um prólogo (vers. 1-2) que relaciona os “Atos” com o 3º Evangelho – quer na referência ao mesmo Teófilo a quem o Evangelho era dedicado, quer na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3º Evangelho). Neste prólogo são também apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus.
            Depois da apresentação inicial, vem o tema da despedida de Jesus (vers. 3-8). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus”. O número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre.
            Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado. As palavras de despedida de Jesus (vers. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos aqui resumida a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. Na realidade, trata-se do programa que Lucas vai apresentar ao longo do livro, posto na boca de Jesus ressuscitado.
            O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.
            O último tema é o da ascensão (vers. 9-11). Evidentemente, esta passagem necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.
Temos, em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu (vers. 9a). A ascensão é uma forma de expressar, simbolicamente, que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai.
Temos, depois, a nuvem (vers. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o céu e a terra a nuvem é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Ao mesmo tempo, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, luz e sombra, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os discípulos.
            Temos, ainda, os discípulos a olhar para o céu (vers. 10a). Significa a expectativa dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar ao seu termo o projeto de libertação do homem e do mundo. Temos, finalmente, os dois homens vestidos de branco (vers. 10b). O branco sugere o mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar na história a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.
            O sentido fundamental da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o “caminho” de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projeto de salvação no meio do mundo.

Conclusão
            A ressurreição/ascensão de Jesus garante-nos, antes de mais, que uma vida, vivida na fidelidade aos projetos do Pai, é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo “caminho” de Jesus subirá, como Ele, à vida plena.
            A ascensão de Jesus recorda-nos, sobretudo, que Ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projeto libertador no meio dos homens e mulheres, nossos irmãos. É essa a atitude que tem marcado a caminhada histórica da Igreja? Ela tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe confiou?
            O nosso testemunho tem transformado e libertado a realidade que nos rodeia? Qual o real impacto desse testemunho na nossa família, no local onde desenvolvemos a nossa atividade profissional, na nossa comunidade cristã ou religiosa?
            É relativamente freqüente ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus gostam mais de olhar para o céu do que comprometerem-se na transformação da terra. Estamos, efetivamente, atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens, particularmente com aqueles que sofrem?


Referência: http://www.dehonianos.org

sexta-feira, 2 de maio de 2014

No Caminho de Emaús

No Caminho de Emaús
03º Domingo da Páscoa - Ano A
Rev. Edson Cortasio Sardinha
                      


            Hoje o Livro de Oração Comum (protestante do século XVI) traz a seguinte coleta (oração): “ Deus Todo-poderoso, tu mostras a luz da verdade aos que erram para que regressem ao caminho da retidão; ajuda os que são de Cristo a renunciar a tudo que se oponha à fé que professam e a andar nos passos do divino Mestre. Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém”.
            O Evangelho de hoje (Lucas 24.13-25) fala do Senhor auxiliando seus discípulos a voltarem ao caminho da fé.
            O terceiro domingo da Páscoa é um convite a descobrir o Senhor que acompanha os homens e mulheres pelos caminhos da vida, aviva com a sua Palavra os corações magoados, decepcionados e desolados, se revela sempre que a comunidade dos discípulos se reúne para “partir o pão”; e apela para que todos sejam testemunhas da ressurreição.
            A história que o Evangelho deste domingo nos apresenta é exclusiva de Lucas: nenhum outro evangelista a refere. O texto põe-nos a caminhar com dois discípulos de Jesus que, no dia de Páscoa, vão de Jerusalém para Emaús.
            De acordo com o autor do texto, os dois homens dirigiam-se para uma aldeia chamada Emaús, a sessenta estádios de Jerusalém (cerca de 10 quilômetros). Uma localidade com esse nome, a essa distância de Jerusalém é, no entanto, desconhecida… Pensou-se que o texto poderia referir-se a Amwas, uma localidade situada a cerca de trinta quilômetros a oeste de Jerusalém (alguns manuscritos antigos não falam de sessenta estádios, mas de cento e sessenta estádios, o que nos colocaria no sítio certo); no entanto, parece ser uma distância excessiva para percorrer num dia, sem paragens e a conversar despreocupadamente.
            A cena coloca-nos, em primeiro lugar, diante de dois discípulos que vão a caminho de Emaús. Um chama-se Cléofas; o outro não é identificado. Os dois estão, nitidamente, tristes e desanimados, pois os seus sonhos de triunfo e de glória ao lado de Jesus ruíram pela base, aos pés de uma cruz. Esse Messias poderoso, capaz de derrotar os opressores, de restaurar o reino grandioso de Davi (”nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel”) e de distribuir benesses e honras aos seus colaboradores diretos revelou-se, afinal, um fracasso.
Rev. Edson Sardinha nas ruínas de Emaús
            Em lugar de triunfar, deixou-Se matar numa cruz; e a sua morte é um fato consumado pois ”é já o terceiro dia depois que isto aconteceu” (o ”terceiro dia” após a morte é o dia da morte definitiva, do não regresso do túmulo). Abandonam a comunidade – que, doravante, não parece fazer qualquer sentido – e regressam à sua aldeia, dispostos a esquecer do sonho, a pôr os pés na terra e a enfrentar, de novo, uma vida dura e sem esperança.
            A discussão entre eles a propósito de ”tudo o que tinha acontecido” (v. 14) deve entender-se neste enquadramento: é essa partilha solidária dos sonhos desfeitos que torna menos doloroso o desencanto.
            Na sequência, o autor do relato introduz no quadro uma nova personagem: Jesus. Ele faz-se companheiro de viagem destes discípulos em caminhada, interroga-os sobre ”o que se passou nestes dias” em Jerusalém, escuta as suas preocupações, torna-se o confidente da sua frustração. Os dois homens contam a história do ”mestre” cuja proposta os seduziu; mas a versão que contam termina no túmulo: falta, na sua descrição, a fé no Senhor ressuscitado – ainda que conheçam a tradição do túmulo vazio.
            Para responder às inquietações dos dois discípulos e para lhes demonstrar que o projeto de Deus não passava por quadros de triunfo humano, mas pelo amor até às últimas consequências e pelo dom da vida, ”começando por Moisés e passando pelos profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que lhe dizia respeito”. É na escuta e na partilha da Palavra que o plano salvador de Deus ganha sentido: só através da Palavra de Deus – explicada, meditada e acolhida – o crente pode perceber que o amor até às últimas consequências e o dom da vida não são um fracasso, mas geram vida nova e definitiva. A escuta da Palavra de Deus dá a entender ao crente a lógica de Deus e demonstra-lhe que a vida oferecida como dom não é perdida, mas é semente de vida plena. Os discípulos percebem, então, que ”o messias tinha de sofrer tudo isso para entrar na glória”: a vida plena e definitiva não está – de acordo com os esquemas de Deus – nos êxitos humanos, nos tronos, no poder; mas está na cruz.
            Os três (Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado) chegam, finalmente, a Emaús. Os discípulos continuam a não reconhecer Jesus, mas convidam-no a ficar com eles. Ele aceita e sentam-se à mesa. Enquanto comiam, Jesus ”tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lhes”. As palavras usadas por Lucas para descrever os gestos de Jesus evocam a celebração da Santa Ceia (eucarística) da Igreja primitiva. Dessa forma, Lucas recorda aos membros da sua comunidade que é possível encontrar Jesus vivo e ressuscitado – esse Jesus que por amor enfrentou a cruz, mas que continua a fazer-se companheiro de caminhada dos homens e mulheres nos caminhos da história – na celebração da Santa Ceia, no Culto, adoração, na comunhão da assembleia reunida: sempre que os irmãos se reúnem em nome de Jesus para ”partir o pão”, Jesus lá está, vivo e atuante, no meio deles.
            A última cena da nossa história põe os discípulos a retomar o caminho, a regressar a Jerusalém e a anunciar aos irmãos que Jesus está, efetivamente, vivo.
            O texto deixa uma mensagem muito importante: depois de fazer a experiência do encontro com Cristo vivo e ressuscitado na acolhida da Palavra e na celebração do partir o pão, cada crente é, implicitamente, convidado a voltar à estrada, a dirigir-se ao encontro dos irmãos e irmãs, e a testemunhar que Jesus está vivo e presente na história e na caminhada dos homens e mulheres.
        
Irmã Marisa nas escadas do Mosteiro de Latrum, em Emaús
    Emaús é a nossa história de cada dia: os nossos olhos fechados que não reconhecem o Ressuscitado, os nossos corações que duvidam fechados na tristeza, os nossos velhos sonhos vividos com decepção, o nosso caminho, talvez, afastando-se do Ressuscitado. N’Ele, durante este tempo, ajustemos os passos para que Ele possa caminhar junto de nós no caminho da vida. Há urgência em abrir os nossos olhos para reconhecer a sua Presença e a sua ação no coração do mundo e para levar a Boa Notícia: Jesus Ressuscitou! Ele ressuscitou realmente!

Referência: Texto adaptado de Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, José Ornelas Carvalho da Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos). LISBOA – Portugal.


A música “Ao partir do pão”, de Wlamir Alencar, fala-nos sobre o encontro de Jesus com os discípulos de Emaús.



     LETRA DA MÚSICA “AO PARTIR DO PÃO”


Quem podia imaginar
que aquela cruz
era só o começo
de uma história de amor.
Comentavam com grande dor
tudo o que se passou
e jamais esperavam
reencontrar o senhor.
Aconteceu sem mesmo esperar
ele apareceu em meio aos dicípulos
a caminhar
Falava de amor
e o som de sua voz
abrasava os seus corações,
e diziam:
Senhor fica conosco
é tarde e o dia declina
quase sem esperança
partimos sem direção.
Mas ao redor da mesa
se abriram os nossos olhos
te reconhecemos
ao partir do pão.
Já não chore Jeruzalém
a alegria voltou.
Teu senhor está vivo
ele ressucitou.